um mundo todo

3 04 2009

Tinhas o mundo todo dentro de ti
abrias os braços e o vento soprava
eu abria os meus e o sol brilhava
tu eras um corpo, eu era só espírito
fazíamos o mar ondular e as nuvens chorar.

Eu tinha o mundo todo dentro de mim
abria a boca e soltava flores e borboletas
tu abrias os olhos e via-se o céu e as florestas.

Em cada um de nós toda a gente
todos os males, todos os bens, todos os sens,
qualquer possibilidade e nenhuma.

Do avesso o vácuo, a ausência, pedras paradas,
árvores tombadas, pássaros perdidos e feridos,
o mar revolto, o rio seco, tudo inerte,
um mundo todo que se perde e foge entre dedos
que nenhum corpo arrasta nem o espírito alcança.





boneco de trapo

3 04 2009

Silêncio, maior do que tu
abala e estremece e tomba
embala, entorpece, ensombra,
como se pudesse, como se quisesse
agarrar-se à terra para brotar de novo
já raíz, semente, caule, folhas.

Silêncio, que embala o tempo
cadente, dormente, senciente
do que em ti fervilha e transborda
no ramerrame diário que te acorda
e te arranca a carne da cama
e te enrola inerte.

Gritas, de dentro de ti sai a voz do mundo
ecoa aqui e ali e perde-se na surdez
surdos que são todos, e cegos
bonecos atrapallhados e desarticulados
na sonolência da vida e do vazio
propositadamente deixados sós.

Agora calas, e calas, e calas
tu, boneco de trapo desmembrado e mudo
que atrapalhado te manténs firme espantalho
parado no meio do nada de braços abertos
e de sorriso parvo te deixas ficar a olhar
para esses pássaros livres que pousam e não ficam.





Imagina uma flor

20 07 2008

Imagina uma flor que pode durar uma vida.
Uma flor com pétalas longas e macias que não voam com o vento.
Uma flor que não murcha se lhe falta água.

Imagina uma flor de caule verdejante e forte.
Um caule que não quebra quando a tentam arrancar.
Um caule que inexplicavelmente se prende ao solo que a alimenta.

Um dia o vento passa e uma pétala cai.
Cai depois outra e outra e ainda mais outra.
Um dia a água escasseia e ela, que não estava à espera, definha.
Um dia uma mão agarra o caule e afinal o caule solta-se.

Imagina uma flor que se chama amor.





Esvoaça

28 05 2007

Sou livre. Mentira. O coração aperta e as palavras saem trémulas.
O mundo abala e tomba e depois cresce novamente sobre mim.
Não estou livre. Prendem-me os projectos e os compromissos, o desejo de não desistir.
Sou bombardeada e não me movo um centímetro. Firme. Petrificada. Horrorizada.
Depois caio, mas apenas quando já estou só.
É depois que apanho os meus estilhaços ou então esqueço-os e tomo nova forma.
Não sou livre. Não me liberto. Ao contrário, aperto. Constranjo, amordaço.
Nem sempre sei quem sou, já nem sei se sou.
Arrasta-se assim o tempo e espero. Nesta espera, a esperança esvoaça.





Ode à máquina de lavar louça

30 03 2007

Ó maravilha das maravilhas!
tanto te resisti para te amar hoje assim
e abusar dos teus préstimos até ao último grão de sal,
até à última gota de abrilhantador.

Ó máquina das máquinas!
poderosas mãos escondes na tua cuba
que esfregam os meus tachos e os meus pratos,
sequinhos no final com os teus vapores milagrosos.

Ainda te olho e não te entendo,
nem sei quanto tempo durarás da forma como te esgoto as energias.

Como pude rejeitar-te durante tanto tempo?
Como pude achar que faria um melhor trabalho do que tu?

Ó máquina! Ó liberdade! Ó tempo livre!
Fim do detergente verde, do esfregão verde e do verde da raiva.