Life Preview

19 05 2009

Uma sessão de Life Preview custa os olhos da cara. Mesmo assim, praticamente todas as mulheres o fazem quando o Ministério da Manutenção da Qualidade de Vida (MMQ-v) lhes atribui o Cidadão Certificado (CC) que mais se aproxima do perfil solicitado. A adequação ao perfil procurado permite que alguns CCs, nem todos, se qualifiquem para partilhar com a sua requisitante as férias holográficas, para fazer a selecção de material genético para uma altergénese (a “concepção” de um bébé como lhe chamavam os nossos avós) ou mesmo – se entretanto não houver devolução durante o período de maturação do CC – para fazer o derradeiro passeio de telepod interplanetário antes do vitae terminus a que todos ainda estamos sujeitos.

A requisição de um CC está a cair em desuso. Mas é uma tradição antiga e quis mantê-la mesmo sabendo que vou ser olhada de esguelha por muitas mulheres. Ainda pensei em fazer como a maioria das minhas convirtas, com quem partilho itens de sabedoria desde os primeiros Níveis Intelectuais (NI). Elas apostaram na progressão de NIs porque dão acesso a mais Pacotes de Qualidade de Vida (Packs Q-v). Estou no nível 10 de 15 e tenho apenas 50 anos. Sei que ainda  tenho uma vida toda pela frente e que aos 65 anos poderei com facilidade estar no último NI, com todos os Packs Q-v a que tenho direito.

As mulheres sabem que se optarem pela requisição de um CC terão de abdicar da progressão de NIs. A maioria delas está numa situação de univida. Mesmo quando querem garantir a continuidade da sua imagem e reproduzir cópias do seu corpo, recorrem às novas tecnologias de programação de partenogénese e reproduzem-se sem grandes preocupações e sem a intervenção de ninguém.

Eu entreguei há pouco a requisição para selecção de um CC e foi-me atribuído um que corresponde exactamente ao perfil que desejo. Mesmo assim quis fazer um Life Preview. Duvido que a melhor opção seja a univida e tenho quase a certeza que este CC é o ideal. O MMQ-v não falha. É um algoritmo testado até à exaustão que só deu problemas nos primeiros 10 anos de implementação devido aos critérios de certificação que estavam a ser utilizados. Entretanto são já mais de 100 anos de aplicação e nos últimos 30 anos não houve sequer necessidade de fazer actualizações. Por um lado a procura de CCs desceu vertiginosamente e por outro o nível de exigência era já tão elevado que não abria qualquer espaço para a inadequação.

Vou fazer o Life Preview para “espreitar” onde vão ser as nossas primeiras férias holográficas e para ver se vamos fazer uma boa escolha de material genético. Só por isto, que não está ao alcance de nenhuma das minhas convirtas vale a pena pagar o montante que pedem para uma sessão resumida.





e-book, página 2

21 08 2008

Na mesa do escritório Maria encontrava-se sempre consigo. No cinzeiro de beatas moribundas, no caderno de folhas tenras onde ocasionalmente faz questão de deixar uma ou outra palavra com caneta de tinta permanente, na vela que acende de vez em quando e espalha maçãs verdes pela casa, no gato que dorme ali mesmo ao lado, na poltrona de braços coçados e almofada de sumaúma. Da janela do escritório avistava-se o rio, estreito e curto, pejado de patos. Na mesa uma chávena de chá, o candeeiro aceso e o telefone que toca. Maria atende, embora saiba que não está ninguém do outro lado porque o auscultador não funciona. Sabe que a ouvem se responder, mas diz apenas “estou” e pousa-o a seguir. Não vai mandar arranjar aquilo. Está muito bem assim. Basta que saibam que está lá. Da janela vê-se a estrada depois do rio e a ponte de madeira. Por lá passa ocasionalmente um carro ou outro. Há carros que páram para olhar para os patos. Depois seguem o seu caminho. Maria sai de casa e vai à cidade. Compra o jornal e pão. Ainda tem cigarros.





e-book, página 1

29 07 2007

Maria fez o bigode, os sovacos e as pernas e saiu à rua bem vestida. Não pôs perfume, só desodorizante. Estava muito calor, um ar pesado e irrespirável. Passos lentos nas pernas, estugados na cabeça. Não sabia o que pensar. Meteu-se no carro e andou um pouco sem rumo pelas ruas da cidade. Era um daqueles dias de incerteza. Parou o carro e olhou para o vazio. Cidade deserta de pessoas, pejada de verão, ausente de ruído. Tudo era silêncio. Na sua cabeça o silêncio era ensurdecedor. Recostou-se no banco e por momentos alguma acalmia. Mas o peso dos seus pensamentos era insustentável, penoso, inquietante. Não podia ficar ali imóvel. O seu corpo estava a afundar-se demasiado depressa. Chave na ingnição, primeira, fora dali. E rápido. Parou no primeiro café, bebeu uma bica, puxou do cigarro com a mão trémula. Tudo à sua volta era um turbilhão silencioso. Pagou, levantou-se, nunca gostou de estar em cafés. Saiu e foi para casa. Sentou-se no sofá com a cabeça a estalar até ficar inconsciente e adormecer de dor.