já estou a arriscar muito II…

28 03 2009

No Sábado passado fui com ela comprar tintas (escolhemos o verdinho) e materiais de pintura.

Hoje iríamos pintar, mas não foi necessário porque ontem à noite em meia dúzia de horas, fez tudo sozinha! Está super feliz e entusiasmada.

Fui lá a casa há pouco e até já tinha colocado os candeeiros para ter o aparato completo quando eu chegasse :) .

E não é que ficou quase como eu tinha imaginado?

Estou muito feliz e já abordámos a cor da sala. Vai ser um lavanda fresquinho.

Até para a semana!





já estou a arriscar muito…

3 03 2009

…mas aqui fica o projecto para a primeira intervenção no corredor:

step1

Paredes laterais a verde, paredes das extremidades e tecto em branco, 3 candeeiros brancos de papel.

E uns quadrinhos novos para animar…

quadro

Lindo!





entre a idade média e a meia idade

2 03 2009

Tenho 31 anos e a minha mãe 55, mas no fundo sou eu que tenho 45 e ela está com uma crise de adolescência. Aparte a esquizofrenia e o anacronismo da situação, a verdade é que – se ainda for a tempo – tenho de me começar a mexer já para a ajudar a minimizar os problemas que ela (não) tem e que não consegue resolver sozinha. Caso contrário, prevejo que a minha rica mãezinha, a quem eu desejo vida longa e próspera (e quem me dera ter nascido emVulcano!) irá ocupar horas longas do meu tempo quando eu tiver idade para me preocupar apenas e só com os meus filhos adolescentes e com as noitadas do meu marido à procura de diversão.

Quando a minha mãe está assim, como estava hoje, pede ajuda indirecta. Grita baixinho e pede-nos que façamos uma leitura rebuscada nas entrelinhas de uma mensagem que, por si só, já não tem qualquer sentido. Percebo-a porque sou exactamente como ela nesta guerra que fazemos entre a nossa personalidade mesquinha de eremitas e a extrema necessidade de, afinal, ter sempre alguém do nosso lado, sem nunca pedir socorro com todas as letras e acabando, sempre e no fim, por dizer que não precisamos de ninguém e às vezes por usar aquele pequeno luxo de virar costas presunçosamente e com grande maldade à mão que nos estão a estender.

Percebo-a, desconstruo-a, e ao mesmo tempo desconstruo-me e vejo-me do outro lado do espelho. Há uns meses atrás, pela primeira vez, ela admitiu a extrema solidão que sente. Nunca o tinha admitido abertamente e de forma tão directa, e senti até que ao admiti-lo mendigava companhia e dois dedos de conversa, rematando sempre com uma mensagem que seria mui típica se proferida por mim e que seja dita de que forma for quer sempre dizer “não percas tempo comigo, fico bem sozinha”.

Hoje queixou-se de outra coisa nova: “demasiado tempo livre” e “muita pressa de viver”. Basicamente, muita pressa para que o dia acabe, muita pressa para que o dia comece, muita pressa para que o fim de semana chegue, muita pressa para que o fim de semana acabe. Um sofrimento atroz, parece-me a mim, assim de repente. Sei que não é grave porque o sinto às vezes e sei que é apenas e só uma grande, enorme, colossal, ausência de objectivos. E sei que passa, e que rapidamente nos agarramos à rotina que tanta segurança nos dá.

Em vez de ser condescendente com ela, não sou. Não consigo ser. Sou dura, ralho, confronto-a com os erros que ela comete e que a têm derrubado ao longo dos anos. Sei que isso não a magoa e tem um efeito positivo nela. Como se a esbofeteasse para a acordar. Também sei que o faço porque já não vivo com ela há mais de 10 anos e porque sei que, mesmo que fique chateada, não vou estar lá a seguir para lhe dar espaço e tempo de ficar uma semana sem me falar como acontecia frequentemente quando coabitávamos.

Ao mesmo tempo, quando faço isto, é como se estivesse a ralhar comigo mesma, eu que tenho tendência para cometer na vida os mesmos erros que ela. Talvez por ter o exemplo dela e por ter mais capacidade para racionalizar os problemas e sobretudo por ser mais madura – é a verdade – não vou persistir nos mesmos erros, ou pelos menos vou adiando os ditos, mas sei que tenho de lutar constantemente contra estes habitus ridiculos que me correm no sangue.

Quando a vejo assim redobro a minha criatividade e procuro – por ela – metas e objectivos, correndo sempre o risco de ela embarcar na coisa e acabar por exacerbar a experiência. Da última vez desafiei-a para fazer caminhadas urbanas comigo. Ela gostou, mas passou para mim o peso de a arrancar do sofá. Não conseguiu autonomizar o prazer que a coisa lhe dava e conseguiu tirar-me o prazer de fazer uma coisa que eu adoro fazer sozinha – lá está a mania da eremitagem – transformando-a numa obrigação ou num quase sentimento de culpa (não que ela ma atribuísse, é certo) se ia caminhar sozinha e não a convidava. 

Este é mais um problema que partilhamos, a obsessão pela rotina e a incapacidade de abdicar da nossa rotina e dos nossos planos (mesmo que os nossos planos sejam a ausência de planos) em prol de terceiros, mesmo que os terceiros de que falo sejam os primeiros da nossa lista de prioridades. 

Assumi hoje que vou dar-lhe mais uma vez a mão e o meu tempo, não sabendo porém se consigo manter a postura. Desta vez o plano é um extreme makeover (versão slow motion e slow budget) à casa que ela habita e que se tornou um reflexo do que vai dentro daquela cabeça: confusão, coisas inúteis, desconforto, escuridão, sufoco. 

Isto é coisa para fazer durante vários meses ao ritmo de duas horinhas por Sábado. Mais do que isso não é saudável nem para mim nem para ela e ambas sabemos isso. Será pouco mas será o suficiente para saber se funciona ou se fracassa. Ao mesmo tempo conversamos sobre coisas sem grande significado existencial como candeeiros e tintas e cortinados.

Vamos começar pelo corredor, mas ainda está sujeito a aprovação de sua excelência que “não sabe” se tem coragem “já no Sábado”. Está avisada (e conhece-me para saber que não é bluff) que só aceito duas ou três recusas. Depois disso passo à frente.