e-book, página 2

21 08 2008

Na mesa do escritório Maria encontrava-se sempre consigo. No cinzeiro de beatas moribundas, no caderno de folhas tenras onde ocasionalmente faz questão de deixar uma ou outra palavra com caneta de tinta permanente, na vela que acende de vez em quando e espalha maçãs verdes pela casa, no gato que dorme ali mesmo ao lado, na poltrona de braços coçados e almofada de sumaúma. Da janela do escritório avistava-se o rio, estreito e curto, pejado de patos. Na mesa uma chávena de chá, o candeeiro aceso e o telefone que toca. Maria atende, embora saiba que não está ninguém do outro lado porque o auscultador não funciona. Sabe que a ouvem se responder, mas diz apenas “estou” e pousa-o a seguir. Não vai mandar arranjar aquilo. Está muito bem assim. Basta que saibam que está lá. Da janela vê-se a estrada depois do rio e a ponte de madeira. Por lá passa ocasionalmente um carro ou outro. Há carros que páram para olhar para os patos. Depois seguem o seu caminho. Maria sai de casa e vai à cidade. Compra o jornal e pão. Ainda tem cigarros.


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