De facto é muito giro andar a pé e faz um bem desgraçado ao corpo e à alma. Mas a verdade é que nunca poderei ser contra os automóveis por uma simples razão. É excelente andar de carro com o meu irmão a conduzir e apanhar uma estrada a caminho de nenhures. Ele gosta à brava de conduzir e eu já me habituei a um tipo de condução que só posso classificar como tranquilo-desportiva.
Passamos pelas terrinhas com os nomes mais estranhos, perdidas atrás de montes e eucaliptais, com estradas que parecem não ir dar a lado nenhum, com ruas tão estreitas onde o carro encolhe a barriga para passar.
Ontem – sem termos sequer feito planos para que isso acontecesse – acabámos por fazer um percurso enorme de carro por estradas nacionais e secundárias, daquelas onde de repente não há sinais de trânsito nem carros, nem pessoas.
A estes sítios não se chega a pé ou de bicicleta. Chega-se de carro – eventualmente de autocarro até à beira da estrada principal. Pior do que isso, destes sítios não se sai a pé. As pessoas que por ali vivem padecem dessa imobilidade, desse apegamento ao banco de madeira ou de pedra que está à porta de casa e onde às vezes se sentam e vêem passar os carros dos forasteiros.
A “estrada principal” tem direito a placa toponímica, arranjadinha e colorida, de tinta ou azulejo. Há nomes de ruas em sítios perdidos, como se fizessem planos de ali um dia viver muita gente, com casas de um lado e do outro e passeios pedonais e zonas verdes como há na cidade. Ruas que se chamam do Alecrim ou da Paz. Há parques infantis inventados pela câmara municipal e pelas juntas de freguesia em espaços exíguos e despropositados que parece que foram feitos “só para aparecer”.
Há cafés de beira de estrada onde a meio da tarde tudo está escurecido e completamente vazio. Onde se percebe que a televisão de grandes dimensões e a mesa de snooker são o melhor que se pode ter como forma de entretenimento. Há um pedaço de bolo caseiro esquecido na vitrine – “feito de manhã”, diz o filho. A senhora atrás do balcão, matriarca do sítio, pega no pedaço de bolo com as mãos todas e com uma faça que pode muito bem servir uma vez por outra de chave-de-fendas, reparte-o em 3 fatias, uma para mim, outra para o meu irmão, outra para um netinho despenteado que saiu sabe-se lá de onde e se lembrou de repente que queria bolo. Comentámos depois no carro que o bolinho foi feito de manhã, certamente, mas na manhã de outro dia qualquer.
Passámos por uma terra que se chama Bandalhoeira. É de lá que são os Bandalhos, suponho. Tudo tem uma explicação.
Passeios rurais engraçados, estes.