e-book, página 1

29 07 2007

Maria fez o bigode, os sovacos e as pernas e saiu à rua bem vestida. Não pôs perfume, só desodorizante. Estava muito calor, um ar pesado e irrespirável. Passos lentos nas pernas, estugados na cabeça. Não sabia o que pensar. Meteu-se no carro e andou um pouco sem rumo pelas ruas da cidade. Era um daqueles dias de incerteza. Parou o carro e olhou para o vazio. Cidade deserta de pessoas, pejada de verão, ausente de ruído. Tudo era silêncio. Na sua cabeça o silêncio era ensurdecedor. Recostou-se no banco e por momentos alguma acalmia. Mas o peso dos seus pensamentos era insustentável, penoso, inquietante. Não podia ficar ali imóvel. O seu corpo estava a afundar-se demasiado depressa. Chave na ingnição, primeira, fora dali. E rápido. Parou no primeiro café, bebeu uma bica, puxou do cigarro com a mão trémula. Tudo à sua volta era um turbilhão silencioso. Pagou, levantou-se, nunca gostou de estar em cafés. Saiu e foi para casa. Sentou-se no sofá com a cabeça a estalar até ficar inconsciente e adormecer de dor.





Só comigo…

23 07 2007

Hoje de manhã fui ao ATM levantar dinheiro. À minha frente uma senhora indignada porque a “máquina” lhe ficou com o cartão. Ainda tive tempo de ler no monitor uma mensagem lacónica do género “por motivos de segurança o seu cartão ficou retido”. Ela parecia incrédula a afastou-se a praguejar.

Era a minha vez. Inseri o cartão e marquei o código. Disse que queria dinheiro. 10 euros. A máquina então diz-me que o meu código estava errado e que tinha mais 2 tentativas. “Porra” pensei, “será que isto está estragado?”. Tentei uma segunda vez, código errado novamente. “Última tentativa” dizia o ATM já aos berros. Claro que fiquei por ali. Entrei no banco e disse que provavelmente havia um problema qualquer com o multibanco porque mesmo antes de eu tentar fazer um levantamento a senhora que estava à minha frente tinha ficado com o cartão retido, e agora era eu que estava a tentar levantar dinheiro e o ATM disse por duas vezes que o meu código estava errado. 

A pessoa que me ouviu deu-me o benefício da dúvida mas revirou os olhos, meio espantada… A outra, ao balcão, disse logo: “ah, se não dá é porque a senhora é que está a por alguma coisa mal”. Consenti, calei e saí.

Entretanto pensei, convencida que a máquina estava com um bug qualquer: “vão ver no final do dia a quantidade de cartões que lá vão ficar retidos! Depois hão-de dizer que afinal eu tinha razão…”

Entretanto olhei para o cartão que afinal era o do Montepio e não o do Barclays. Eu estava a marcar o código do cartão do Barclays. Que figura…





Diversidade genética e o perigo de extinção de pessoas como deve ser

21 07 2007

No tempo dos meus pais – e talvez dos pais deles – praticamente todos os casais tinham mais do que um filho. Um casalinho era bonito de se ter. Embora vivessem com mais dificuldades, tudo se ia arranjando. Eu sou a prova disso. As famílias eram mais unidas, os avôs mais disponíveis, e as avós quase sempre domésticas.

Ora hoje em dia, assim por alto, pessoas com imensos filhos só vejo de duas categorias. O pessoal das famílias numerosas que é todo bem, cheio de pruridos morais e regras sociais, com filhos que serão provavelmente iguais a eles, pouco inteligentes mas bem educados; e o pessoal que não tem eira nem beira, que não faz controle de natalidade porque é ignorante, que não sabe, não pode, não consegue dar educação aos filhos, futuros trabalhores da indústria e do comércio – com sorte – ou potenciais delinquentes.

O pessoal normal, com formação média e superior, trabalhadores por conta de outrém com salário médio ou alto, só tem filhos quando entende que tem condições para os sustentar. Esta é a palavra de ordem. Aliás, falar no plural é exagero. Um filho, não mais. Dois para os mais aventureiros, vá.

Um dia as pessoas normais vão estar em franca minoria.





Só para terminar

21 07 2007

A pomba atrofiou e deu para lá umas voltas estranhas de tal forma que o ovo rebolou para fora do ninho.
Ainda por lá ficou uns dias, mas tanto a pomba como nós achámos que aquilo já não ia dar em nada.

Peguei no ovo e trouxe para casa. Fica de recordação.